Quinta-feira, Novembro 26, 2009

ÚLTIMA CARTA

Escrevi-te
como quem pedia água
de que nunca terás sede;
como quem dá
a certeza do Azul
nos dias mais cinzentos;
como quem se dá
na certeza
da troca
que nunca virá.
Escrevi-te
e chamei-te asa
como quem diz
nuvem
e disse viagem
como quem diz
rio
e fogo
e dor...
desta vez, porém
escrevo-te
e chamo-te
longe
como quem diz
lágrima
e despedida!...

Maria Mamede

Domingo, Novembro 01, 2009

BLANCAS MANOS

(em jeito de homenagem a Mercedes Sosa)

No tengo lo pelo negro
ni las mejillas salientes
tengo huellas en mi rostro
y en la luz de mis ojos
los rostros suficientes
de todos que amé y amo
iguales o diferentes...

no tengo lo pelo negro
pero mis manos tan blancas
son como dos golondrinas
vienen y van por el aire
de terciopelo vestidas
estas dos manos tan blancas
como niñitas dormidas!...


Maria Mamede

Domingo, Outubro 11, 2009

Mãe

Tuas mãos
sempre foram
a casa
o colo
a asa
o consolo...
húmus
rito
bálsamo
grito
corpo
e infinito!...


(do livro "MÃOS")

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

S/Título

Tuas mãos
dois pássaros...
asas abertas
esticam ao sol as penas
ao romper da manhã;
duas garças brancas
pousando suavemente
no meu colo
no meu corpo
campo aberto a carícias...
e levantam
e planam
e pousam
e percorrem
e acariciam
e levantam
e planam
e pousam
e....


Maria Mamede

(do livro Mãos)

Sábado, Setembro 12, 2009

MÃOS

Olá minhas queridas Amigas e Amigos!

Tanto tempo ausente, deve-se a vários factores, bons e maus com que a vida nos vai presenteando. Dores e Alegrias, sejam quais forem os teores, chegam em conjunto, como moedas que sempre têm a face e o reverso; por isso, às vezes, sou obrigada a hibernar para lamber feridas ou afagar a dor, mas depois volto e creio bem mais forte, mais disponível para a alegria, a felicidade e principalmente para a Poesia.

Dum novo livro, cujo título é "MÃOS", aqui fica um poema de homenagem às MATRIARCAS, da minha e de tantas outras famílias.

Um abraço de todas as cores para vós, que por mim sentis afecto, na maioria dos casos sem sequer me conhecerem pessoalmente e a quem também quero muito bem, apesar destas circunstâncias.

M.M.


MATRIARCAS

Tuas mãos Mulher
lareira acesa
toalha e bragal
broa de milho
e o linho
e a lã;
na cama o filho
e sobre a mesa
a horta
o pomar
e o jardim...
na adega
o vinho e a salga
na tulha
o trigo
o fumeiro na cozinha
e o caldo
bebido pela malga
e a Páscoa
e o Natal
e a fome da vizinha
e a doçaria
e a fartura
de amor
porque és assim!...

Maria Mamede

Quinta-feira, Julho 23, 2009

ESCRITO A QUENTE

Escrito a quente
nas veias
nas têmporas
nos pulsos
escrito a quente
corpo e alma
e o tormento da sede...
assim me sinto
e te sinto
na lonjura da saudade!...


Maria Mamede

Terça-feira, Julho 07, 2009

S/Título

Vou-te escrevendo um livro
verso a verso
e só tu serás capaz
de o entender
livro
sonho controverso
naqueles que temos
a haver...
vou-te escrevendo um livro
letra a letra
vogais e consoantes
da memória
contando, dia a dia
nossa estória
nas vidas que temos
por viver!...


Maria Mamede

Sábado, Junho 20, 2009

PODE ATÉ SER...

(A um Amigo, do outro lado do mar)


Pode até ser que um dia, na esplanada
ou na varanda coração, escancarada
nos sentemos, olhando o pôr do sol
desfiando um rosário de lembranças...
pode até ser, meu Amigo, que a vida
nos deixe navegar, tara perdida
num raio de luz, feito de esp'ranças
que pelo mar se vai, ao arrebol!...



Maria Mamede

Quarta-feira, Junho 10, 2009

COMO FOSSE BARRO

Como fosse barro
amasso gotas de saudade
e giro, giro
nesta roda de ausência
enquanto
cozendo a dor
faço em pó
os desejos de afecto...
depois, embrulho em papel
de seda, colorido
meus beijos de bem querer
e entregando-os ao vento
vou por aí fora
à procura de Amanhãs!...


Maria Mamede

Domingo, Maio 31, 2009

NÃO IMPORTA...

Não importa se és tu
a minha Alma Gémea
que há tanto procuro...
não importa
se meu coração
se confunde
de tanto esperar
essa, que me completa...
importa somente
que sejas quem fores
chegas na brisa dum desejo
e és bem-vindo
nos versos que te faço!...



Maria Mamede

Domingo, Maio 24, 2009

SAUDAÇÃO

Ave
gloriosa manhã que dissipas a treva
ave
força indomável da natura
que chegas cada dia
na prematura
hora a saudar o sol...
eu te saúdo e te amo
raínha da abundância
e te oferto
das flores a fragrância
do teu romper
a noite inaugurada!
Ave
Ó tu, senhora bem amada
por quem te oferece a cruz
nos perfeitos
dias do sofrer;
ave, ave
ungida do saber
na intemporal neblina da prece...
eu te saúdo manhã
feita de vida
e te peço a luz
em meu viver!...


Maria Mamede

Domingo, Maio 17, 2009

AMOR

Não adianta!...
Nada adianta já!
Passou por mim correndo
atirou-se às ondas
e navegou, navegou
sem rota nem tempo certo...
se ancorou algures, não sei;
sei somente que deixou este cais
que sou
e partiu rumo ao ocidente
no encalço do sol.
Vieram estão as aves
que colocaram em meu regaço
em vez de lágrimas
conchas
e flores azuis
trazidas de longe!...

Maria Mamede

Sexta-feira, Maio 08, 2009

POEMA PRA DEPOIS

Quando um dia eu for
prado verdejante
no mar uma onda
nuvem no anil
quando a minha essência
for somente o instante
a rosa de maio
ou o cravo de abril
quando a minha dor
for lago sereno
ou um dia ameno
de suaves ais
poderei dizer-vos
eternos amores
já não terei dores
às do mundo iguais...
então meus Amigos
não choreis por mim
estarei feliz
por vos ter amado
a Paz suprema
terei alcançado
e terei regressado
ao pó de onde vim!...


Maria Mamede

Quinta-feira, Abril 30, 2009

NESTE MAIO...

No Maio deste ano
nada peço...
cansada
do verso e do reverso
das bolorentas promessas
de melhora
é com dor
que vejo ir embora
a esperança que tive
e que professo
mas crer, de verdade
já não posso;
e, perdoem que vos diga
nós sempre tivemos
"mais olhos que barriga"
e acreditamos porque queremos
no arranjo "por baixo do pano"
e valorizamos o engano
a mentira, o "dá-se um jeito";
quando se fará direito
o que entortamos?
E, olhe-se bem
aquilo que logramos.
Já passaram 35 anos!
Dos cravos nem se sabe
murchos todos
pelas promessas incumpridas
pelo pão que falta
em cada mesa;
que revolta me dá
e que tristeza
olhar os olhos de quem sofre
a rodos!
Culpados?
Somos todos
ao cair, uma vez mais no mesmo logro;
oxalá acordemos num recobro
de diferentes promessas
sem perjúrio
do verbo "ser igual"
a conjugar
que latente em mim
há um murmúrio
de tormenta
prontinha a REBENTAR!...

Maria Mamede

Segunda-feira, Abril 27, 2009

PRECE

Depois de curto interregno, volto aos poemas da minha fase "Medieva" ; por isso aqui vos deixo mais uma Cantiga de Amigo.


PRECE

Meu Senhor de toda a graça
que vejo em mia capela
quando vou ao povoado
me estou em muito cuidado
meu Senhor, pelo cavaleiro
que roubou meu coração...
Vós que sabeis meu segredo
meu Senhor da compaixão
valei-me que bem podeis
na mia grande aflição...
é que não sei novas dele
meu Senhor, donde será?!
Quem sabe se me amará!
Meu Senhor da Benta Mão
deitai mão ao meu amado
que me morro de cuidado!...


Maria Mamede

Domingo, Abril 19, 2009

ABRIL...

Queridos Amigos e Amigas,

há alguns anos atrás, escrevi um sonetilho que aqui vos deixo.
Infelizmente desde essa altura que se mantém actual:
Contudo, continuo teimosa e esperançosamente a acreditar no Futuro
Beijos



ABRIL DAS ÁGUAS MIL


Quando foi Abril, no tempo certo
de esperanças mil, de ideais
cada um de nós foi muitos mais
e Abril se abriu, foi tempo aberto...

quando se diss' Abril ao mundo inteiro
nesse Abril d'águas choveu flores
e arderam paixões, fogo de cores
nesse Abril, pra muitos o primeiro...

e choveu águas mil nos corações
águas de paz sem dor silente
águas dum futuro conquistado...

mas depois, só choveu desilusões
E o Abril, de novo mais descrente
é outra vez às águas condenado!...


Maria Mamede

Domingo, Abril 12, 2009

ADÁGIO MEU...

Adágio meu, nos olhos e na alma
do coração nem falo, que a ternura
está pintada nesta tarde calma
que morre, como expira a criatura

neste leito de água que apodrece...

Adágio meu, o oboé que chora
por cima das águas da lagoa
é rouxinol cantando e leva embora
um adágio de amor que me atordoa

e é corda do meu ser, que estremece...

Adágio meu, tão meu e tão perfeito
escrito para mim que o amo tanto
por isso me pertence por direito
e ao escutá-lo, me desfaço em pranto;

Veneza é o Amor que se não esquece!...


Maria Mamede

Domingo, Abril 05, 2009

TEMPESTADES

Quando no peito a noite é mais profunda
que a noite que desce na cidade
quando na verdade que me inunda
o tempo é só inverno na idade...

quando no olhar há só talvez
ou até sempre, ou até nunca mais
e em mim deixou de haver porquês
pela morte de tantos ideais...

quando o tempo põe a capa do invés
e troam sinfonias colossais
quando há mais mar que há marés
ecoando em crateras abissais...

e quando o mistério que há no rosto
é somente o rosto do cansaço
que faz em bagaço e em mosto
a vindimada vinha do espaço

feche-se a porta, cumpra-se o destino
que a terra, só exige o que lhe cabe;
voltemos à chegada, ao ser menino
é hora de regresso à eternidade!...

Maria Mamede

Segunda-feira, Março 30, 2009

LEGENDA

Leio-te na pedra das palavras
nos opostos conínuos
no dobrar das esquinas
onde o poema se escreve...
leio-te e espero
que a paz te visite
pela calada da noite
na saudade branca
das paisagens de neve!...


Maria Mamede

Sábado, Fevereiro 28, 2009

CANTIGA DE AMIGO

Quem dera meu cavaleiro
fosse esta a cidade
de muralhas interditas
a tudo que é inimigo...
e que dera meu Amigo
fosse minha, fosse vossa
pra que esta cousa nossa
a pudesse eu ofertar
ao Deus que olha por nós...
como eu queria estar a sós
convosco, ó meu senhor
e quanto bem vos daria...
tudo que em mim principia
é somente um bem-querer
sem conta e sem medida;
por vós eu daria a vida
de bom grado, cavaleiro
só vós sois o amor primeiro
desta dama, que sem vós
morreria no intento
de achar poiso seguro;
só vós sois o escudo, o muro
que me guarda da maldade
só vós e esta cidade
onde vos dei o meu ser;
por isso, se aqui morrer
deixai meu corpo na bruma
pois esta, como nenhuma
é diversa na beleza...
a esta será devida
saudação e romaria
pois que aqui principia
minha chegada e partida...
ó meu senhor cavaleiro
dono do meu coração
dono de mim, em verdade
se eu morrer nesta cidade
dai meu corpo a este chão!...

Maria Mamede

Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009

DECLARAÇÃO

Olá a todos.
Às vezes, tentando mudar o tipo de escrita, acontecem coisas curiosas.
Dessas experiências, nasceu um dia um livro, ainda não publicado, ao jeito de Poesia Trovadoresca, do qual vos dei a conhecer o poema do meu post anterior e este agora.
Como sempre, esperarei as vossas apreciações, abraçando-vos com ternura.

Maria Mamede




DECLARAÇÃO


Aman
meu senhor da nostalgia
rejubila de alegria
meu coração, por vos ver
e meus olhos a seu jeito
é que me saltam no peito
Vossa Mercê pode crer!
Não sei que digo, que faço
se sim ou não vos enlaço
num abraço tão esperado
meu senhor da nostalgia
acha Vossa Senhoria
que amar assim é pecado?!
É o tempo cousa beve
quem dera fosse, ao de leve
pousar na minha janela;
apanhava-o de repente,
Vossa Mercê pode crer
e poria trancas nela!
Depois, era só olhar-vos
e não parar de vos ver!...


Maria Mamede

Domingo, Fevereiro 15, 2009

MEU AMOR, MEU AMOR

Foste pão da minha fome
foste água da ribeira
foste mágoa, foste nome
foste fogo na lareira...
ai meu amor, meu amor
que esperei a vida inteira...

foste rio, céu de espanto
foste fonte, verde prado
foste bem-querer, foste tanto
foste amante, namorado...
ai meu amor, meu amor
que tempo tão sem cuidado...

foste esperança, foste vida
festa de amor, de carinho
e foste terra esquecida
e eu, pássaro sem ninho...
ai meu amor, meu amor
que perdi pelo caminho!...


Maria Mamede

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

POSES

De pé
como uma árvore
ou um desejo
no silêncio das noites
sem sossego
de pé
no sonho
a que me apego
de pé na alma
sou no entanto
um barco na corrente
horizontal e crente
que o amor é luz
e que a viagem
não finda na paisagem
da chegada.
De pé
qual pórtico antigo
resto de borrascas colossais
e ao mesmo tempo
regato languescente
a deslisar
ciente
de que não volta mais!...


Maria Mamede

Domingo, Janeiro 25, 2009

OFERTA

Dei-te o "Fio de Prumo"
e um Pião
meu coração desavindo
onde enrolaste uma faniqueira
de passado
baraço de murmúrios
a amarrar o tempo.
Dei-te o Azul
farrapo de esperanças
puídas, gastas
no ontem e no amanhã
que o hoje já não veste.
Dei-te o Mar e o Vazio
que o corpo apregoa
no jeito-garganta
da voz que se despe.
E dei-te Afecto
e o que isso seja
no dicionário incompleto
da vida no fim!...


Maria Mamede

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

SOU O ÚLTIMO NAVIO

Sou o último navio!

Nem sol nem mar lambendo o casco
nem vento alisando velas...
só noite e demógenes
candeia de lonjura
sulco dorido
na quilha do tempo.

Sou o último navio!

E o cais de acostagem
será o fim e o princípio de tudo!...



Maria Mamede

Domingo, Janeiro 11, 2009

JÁ DISSE TODAS AS PALAVRAS

Já disse todas as palavras
todas!
As de canto
as de encanto
as de dor
as de amor
as de frio
as de cio
as de sorte
as de morte
e as de vida
dorida, ferida, ferida...
e o que trás
o que faz
o que jaz
sem temor
é um rio
vazio
tão só e tão frio
por falta de amor
todo dor, todo dor...
já disse
e não espero
nem quero
não quero
o desejo dum beijo
em boca promessa
nem ternura com pressa;
não mais a tristeza
não mais a incerteza
não mais a rudeza
de sílaba assim...
não quero palavras
escritas ou ditas
feias ou bonitas
que doem em mim!...


Maria Mamede

Domingo, Janeiro 04, 2009

NO PRIMEIRO ALVOR

É na cadência do verso
que a noite se demora...
é no ritmo do abraço
que ela se curva
e entontece
e volteia
com seu vestido azul
esquecida da hora
gerando
uma tempestade de estrelas.
Quando chega a madrugada
rende-se
à luz que desponta
e abraçada ao sonho
parte no primeiro alvor!...


Maria Mamede

Sexta-feira, Dezembro 26, 2008

OUTRA VEZ

Nasce outra vez
Menino Deus!
Onde?
Tanto faz!
Importa
é que não esqueças;
sem merecermos
reclamamos as promessas
do Teu amor profundo...
que aos Herodes deste mundo
tragas paz!...

Maria Mamede

Segunda-feira, Dezembro 01, 2008

MEDITAÇÃO

É tão somente a dor
e o mar em volta...
é tão somente
a vida verdadeira
num sonho
correndo à rédea solta
num inverno a dois
junto à lareira...
é tão somente o amor
e a revolta
quase tocar
e nunca possuir
é tão somente a dor
e o mar em volta
e esta raiva de ficar
nunca partir!...

Maria Mamede

Segunda-feira, Novembro 24, 2008

AGRADECIMENTO

Olá Amigos e Amigas,

Venho agradecer a todos/as, os votos carinhosos e dizer-vos que tudo correu bem.
Foi uma bela noite de convívio. Se acaso eu for capaz, dentro de alguns dias darei a conhecer fotografias da apresentação, que em breve chegarão às minhas mãos.
Até lá, o meu BEM-HAJAM e o meu abraço.


E agora, o poema para este dia cinzento


ENCHEM-SE MEUS OLHOS...

Enchem-se meus olhos
de saudades do chão
e a alma faz-se mar
escorrendo por eles
gota a gota...
enchem-se meus lábios
de saudades do sol
e o inverno faz-se abraço
nas brasas que crepitam
na lareira
e nos olhos da gata
enroscada a meus pés!...


Maria Mamede